Minhas Eleições e cicatrizes de 10 anos



 Imagine uma árvore plantada há muitos anos.

Suas raízes representam a família, a história e tudo aquilo que foi construído antes de nós. O tronco representa os vínculos que nos mantêm unidos. E seus galhos representam as escolhas que cada um faz ao longo da vida.

Em 2016, uma tempestade passou por essa árvore.

Cada pessoa escolheu um galho. Alguns ficaram de um lado, outros do outro. A eleição passou, os votos foram contados, os vencedores foram proclamados e, aparentemente, a vida deveria seguir normalmente.

Mas, para mim, aquela não foi apenas uma eleição.

Foi o início de uma década.

Nos dez anos que se seguiram, eu fiz uma escolha que talvez hoje tenha um significado ainda maior: escolhi ficar em Abaiara.

Poderia ter seguido outros caminhos. Poderia ter buscado outros lugares, outras oportunidades, outras histórias. Mas escolhi permanecer.

Escolhi crescer junto com as pessoas que estavam ao meu redor. Escolhi construir minha trajetória aqui. Escolhi acreditar na cidade, nas relações, na família e nas possibilidades que aquele lugar representava para mim.

E fiz isso acreditando que, com o passar dos anos, o reconhecimento também viria.

Não esperava apenas patrimônio.

Esperava algo que, para mim, talvez fosse ainda mais importante: ser reconhecido como alguém que também fazia parte daquela história.

Esperava que minha trajetória fosse observada. Que meus esforços fossem considerados. Que aquilo que eu entendia ter construído e merecido encontrasse, dentro da própria família, o devido reconhecimento.

Esperava que os títulos, os espaços e a herança — não apenas a material, mas também a simbólica — fossem tratados como parte de uma história da qual eu também era protagonista.

E talvez seja justamente aí que esteja a maior dor.

Porque eu não fui embora. Eu fiquei.

Fiquei enquanto os anos passavam.

Fiquei enquanto outras pessoas construíam suas vidas.

Fiquei acreditando que permanecer também significava pertencer.

Fiquei acreditando que crescer junto com todos significava que, algum dia, todos reconheceriam também o meu crescimento.

Por isso, a reviravolta dos últimos tempos foi tão difícil de compreender.

Não era simplesmente uma mudança de posição política ou uma divergência familiar.

Era a sensação de que, depois de dez anos escolhendo permanecer, o lugar que eu imaginava ter construído dentro daquela árvore talvez não fosse mais o lugar que os outros estavam dispostos a me reconhecer.

E isso muda completamente a maneira como se olha para o passado.

Porque quem olha de fora pode dizer:

“Foi apenas uma eleição de 2016.”

Mas quem viveu esses dez anos sabe que não foi apenas isso.

Foram dez anos de escolhas.

De permanência.

De expectativas.

De convivência.

De construção.

De esperança.

De acreditar que o tempo seria capaz de aproximar aquilo que a política havia afastado.

Só que o tempo também pode revelar coisas que antes não queríamos enxergar.

Talvez eu tenha passado esses dez anos tentando provar que meu galho merecia crescer naquela árvore, quando, no fundo, eu esperava que aqueles que estavam nas raízes reconhecessem isso espontaneamente.

E talvez essa seja a parte mais difícil de aceitar:

eu não esperava essa reviravolta justamente porque, durante dez anos, fiz a escolha de permanecer.

Eu apostei na permanência quando talvez outros estivessem fazendo outras apostas.

Eu apostei no pertencimento.

Acreditei que o tempo poderia transformar diferenças em compreensão.

Acreditei que a história familiar seria maior do que as divergências políticas.

E talvez tenha sido essa expectativa que tornou a decepção tão profunda.

Porque uma pessoa suporta melhor perder uma disputa quando sabe que disputou apenas uma vez.

O que é difícil é descobrir, depois de uma década, que aquilo que você imaginava estar construindo talvez tivesse sido interpretado de maneira completamente diferente pelas pessoas que você esperava que estivessem construindo junto com você.

E aqui está a grande reflexão:

uma eleição pode durar meses, mas as consequências de uma escolha podem atravessar décadas.

Em 2016, houve uma tempestade.

Mas, para mim, os dez anos seguintes foram o período em que continuei dentro da árvore, tentando fazê-la crescer.

E talvez eu tenha esperado que, depois de tanto tempo, alguém olhasse para o meu galho e dissesse:

“Ele também estava aqui.”

“Ele também construiu.”

“Ele também merece.”

“Ele também faz parte dessa história.”

Talvez essa frase nunca tenha sido dita da maneira que eu esperava.

Mas uma coisa permanece.

Eu sei os caminhos que escolhi.

Sei que fiquei.

Sei que investi minha vida em Abaiara.

Sei que tentei crescer junto com aqueles que estavam ao meu redor.

E sei que não imaginava que, justamente depois de dez anos de permanência, viria uma reviravolta capaz de fazer com que eu revisitasse tantas coisas que acreditava estarem resolvidas.

Talvez essa seja a verdadeira cicatriz.

Não a VITÓRIA de 2016.

Mas a descoberta, dez anos depois, de que aquilo que eu imaginava ser uma construção coletiva talvez não tivesse, para todos, o mesmo significado que teve para mim.

Ainda assim, uma cicatriz não significa que a árvore morreu.

Ela prova que a árvore sobreviveu.

E talvez agora seja hora de parar de olhar apenas para o galho que foi ferido e começar a olhar para tudo aquilo que cresceu durante esses dez anos.

Porque eu permaneci.

Eu cresci.

Eu construí.

E, mesmo que o reconhecimento que eu esperava não tenha vindo da maneira que imaginei, ninguém pode apagar os dez anos que eu vivi, as escolhas que fiz e a história que construí em Abaiara.

Talvez a maior reviravolta seja justamente essa:

eu passei dez anos esperando ser reconhecido como parte da árvore. Agora talvez precise compreender que também posso ser autor do meu próprio crescimento e caminho.


Abaiara precisa de alternativas NOVAS no campo democrático.

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