SEJA BEM VINDO ELMANO, NOSSA TERRA DE INSEGURANÇAS.

 


Não foi o sol — esse já nasce forte por aqui, como quem conhece bem o chão que ilumina. Também não foi o vento, que passa apressado pelas ruas como se tivesse sempre algo mais importante a fazer. Foi a notícia. O governador vem.


E quando uma autoridade vem, Abaiara muda o ritmo. A calçada ganha vassoura mais cedo, o uniforme é passado com mais cuidado, e até o silêncio parece ensaiado. Há uma expectativa no ar — dessas que misturam orgulho, curiosidade e um certo incômodo que ninguém diz em voz alta.


Na escola, então, o movimento é outro.


A EEMTI Belarmino Lins de Medeiros — única escola de ensino médio da cidade — se prepara. Não é só uma visita. É um evento. Os alunos do segundo ano vão receber tablets. Tecnologia nas mãos, promessa de futuro, símbolo de modernidade. Um gesto bonito, sem dúvida.


Os estudantes sorriem. Alguns já imaginam pesquisas, outros pensam em aplicativos, vídeos, talvez até jogos escondidos entre uma tarefa e outra. O brilho nos olhos é real.


Mas o calor também é.


As salas, ainda sem climatização, seguem abafadas. O ventilador gira como quem tenta ajudar, mas parece cansado antes mesmo da segunda aula. O suor escorre junto com a explicação do professor. E aprender, nessas condições, exige um esforço que nenhum tablet consegue medir.


No intervalo, a cena se repete: alunos espalhados pelos poucos espaços disponíveis, improvisando lazer onde dá. Falta sombra, falta estrutura, falta lugar para simplesmente ser jovem sem pressa.


E é curioso como tudo isso convive no mesmo espaço.


De um lado, a entrega de tecnologia — símbolo de avanço.

Do outro, a ausência do básico — condição de permanência.


Não é ingratidão. Ninguém aqui ignora a importância do que chega. Um tablet pode abrir portas, ampliar horizontes, conectar o estudante a um mundo que antes parecia distante.


Mas também não dá para fingir que está tudo resolvido.


Porque educação não se sustenta só com inovação; ela precisa de dignidade.


Precisa de salas onde o aluno consiga respirar.

De espaços onde ele possa conviver.

De estruturas que não sejam apenas cenário para visitas, mas realidade no dia a dia.


Hoje, quando o governador chegar, haverá aplausos. E eles serão sinceros. Porque cada conquista, por menor que pareça, importa.


Mas talvez, no meio desses aplausos, exista também um pensamento silencioso, desses que não aparecem em discursos:


“Que bom que trouxeram o futuro. Agora falta cuidar do presente.”


E Abaiara, com sua simplicidade firme, seguirá como sempre fez — recebendo, agradecendo, mas também esperando. Porque quem vive a escola todos os dias sabe: educação de verdade não cabe só na palma da mão. Ela precisa de chão, de teto… e de um pouco menos de calor.

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